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Big Brother

por correspondente, em 03.01.15

Certas pessoas têm a mania da perseguição. Creio que não faço parte desse género de pessoas. Contudo, ontem, no regresso à vidinha do dia-a-dia (já com o ano velho lá para trás), depois de passar o passe na maquineta da camioneta e, depois de me sentar, dei por mim a pensar, durante essa curta viagem entre a Pontinha e aqui o casal de São Brás, como um mero gesto, como esse, o de passar o passe, contribui, se se quiser, para controlar os nossos movimentos. Aquele gesto registou a hora, o local e o transporte utilizado por mim, no ponto de entrada, só fica a faltar mesmo o registo de saída da dita camioneta (mas para isso, com eventual cruzamento de informação, aqui estaria eu a dar mais coordenadas para o efeito, através deste post, neste blogue). Enfim, não fico minimamente preocupado com esse facto, de que se saiba por onde ando. Porém, não deixa de ser uma coisa meio estranha, apercebermo-nos que um simples gesto, como esse de passar o passe, estatisticamente, permite saber tanta coisa sobre nós como, por onde andamos, a que horas andamos, que transportes utilizamos e quantas vezes por dia, por semana ou por mês os utilizamos. Isto, falando do passe, mas também podíamos falar do multibanco, do cartão de cidadão ou até, por exemplo, das facturas em nosso nome, das facturas com o nosso número de contribuinte, dessas facturas que no futuro, até para o preenchimento da declaração de IRS, se calhar, esse mesmo preenchimento será muito mais prático, pois muito provavelmente os nossos gastos já estarão devidamente classificados e divididos pelas respectivas rúbricas e tudo ou quase tudo estará “pré-preenchido”, o que nos facilita muito a nossa vidinha, mas que nos deixa, com toda a certeza, com aquela amarga sensação de “controle”. Imaginem, neste capítulo das facturas, por exemplo, que alguém se lembra de escortinar as nossas despesas anuais e, de cortes de cabelo nada, como é que foi possível? Um ano inteiro sem cortar o cabelo? Vamos lá confirmar isso. Venha até cá mostrar essa “gadelha”! Tem um carro e de oficina nada nem tão pouco de gasolina? Mas esse popó é como o outro do anúncio de tempos idos, “Gasolina mal precisa, oficina nem pensar”, vamos lá confirmar isso, vamos lá ver se é uma DYANE (passe a publicidade). Bom, bom, não vale a pena dar ideias, pois se não, ainda passam a ser os maus-da-fita, os que consomem e não os outros.
O que não faz o Espumante de fim de ano! Tanta imaginação!
Como nota final, apenas para dar um ar de intelectual, informo que o título do post nada tem a ver com concursos televisivos, mas sim com o escritor George Orwell e o seu livro 1984, que aqui confesso, não li.

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